quarta-feira, 8 de novembro de 2017

POESIA MILITANTE - I -- PARTE



RETOMANDO A PUBLICAÇÃO DA POESIA DE REIS CAÇOTE !


                   POESIA  MILITANTE

                          I - PARTE


 

1 – FRIEZA

Dos olhos daquela criança
Que chora
Aparei cristalinas
De cada olho uma lágrima
Que coloquei nos teus olhos de estátua
Insensibilidade de pedra
Já que nunca tinhas chorado:
                            Nem lágrimas de criança se ajustam
                            Aos teus olhos !
Serão de vidro ?!




2 – ORATÓRIO

Atrás daquela janela
Está acesa uma vela
                            Não alumia um altar…!
Mas a fotografia de um militar !



3 – EMIGRAÇÃO

Para terras de França partiu
Mais um irmão…
Como os outros clandestino
Analfabeto como os outros.
         Ficarei mais rico sempre que um irmão parte ?!
Não !
         Como eles reneguei a herança
         Mas nunca partirei para terras de França.
Enquanto em mim residir a esperança
Não a apregoada na fé
Mas a na falta de fé idealizada
                            Em cada dia
                            Apenas de poentes
                            Que só a natureza
Se permite colorir !



4 - DO HERÓI

Meu remo partido no lombo do mar
Meu coto de braço perdido na guerra
Meu resto de perna amputado de  bomba
Meu olho a menos perdido na mata
Meu pensamento interrompido pela última explosão.
                            Coto de braço
                            Resto de perna
                            Olho a menos
                            Pensamento interrompido
Meu remo partido no lombo do mar
Sou o que resta de um Herói da guerra !




5 -  “ONU – NATO


Farto de frio
Farto de fome
                            Farto o frio de fome
                            Farta a fome de frio
Vietname !    Paquistão !    Biafra !
Discussões duras nas Brancas casas
                   Sobre a fome de frio farta
                   Sobre o frio de fome farto
Nas Casas Brancas discute-se duro
                   Sobre as casas sem côr
                            Dos de fome fartos de frio
                            Dos de frio fartos de fome
A frio se discute duro nas Casas Brancas
Alçapões de consciências !!!




5 – OTORRINO


E do alto da vestida sabedoria branca
Brotou a negra sentença:
                   Tens de pensar em ser operado!

A partir daí
Nos olhos e mãos do sábio

Passei a ver só um bisturi !
                   Grande demais para amputar
Minhas cordas vocais !

Mas aqui para nós:
                            Se tiver que ser operado
                            E gritar não for capaz
                            Virei à mesma p’rá rua
                            Com meu grito num cartaz !

Sempre que tiver razão
Lá estarei de cartaz na mão
                                      Calarem-me é que não !

E se meu grito
Não couber num só cartaz
Gritarei em dois
E se preciso for escreverei
                                      Pela frente e por trás !

E se me cansar do cartaz
E continuar a ter razão
                                      Como agora
Olharei para trás e
Num repelão              
                                      Deitar-vos-ei a língua de for !
Não esperarei que m’a puxem
Nem ouvirei vosso palavrório
Como sucedeu naquele dia
                                      No teu consultório !...




6 - GUIA “TURISTICO”

Vedes além
Engravatado
Aquele homem parado ?
                                      Não é um vadio
                                      Um ocioso
                                      É um “senhor deputado “ !
A atravessar a rua
Gordinho
De charuto na boca
E olhar sinistro ?
                                      Não é um assassino
                                      Nem um cauteleiro
                                      É um post-ministro !
Daquele lado
Com duas moletas
Em metal cromado?
                                      Não teve um acidente
                                      Veio da guerra
                                     Era soldado !
Lá em cima
A meio da encosta
A luzir ?
                                      São telhados de barracas
                                      De gente humilde
                                      Para demolir !
E aquele todo sujo
De andar lento
E grande cifose ?
                                      Não é um desempregado
                                      É um mineiro
                                      De pulmão silicose !
E além ao cimo da escada
Na entrada da Faculdade
Mal encarado
                                         Não é um aluno e
                                       Nem um professor
                                       É um PIDE disfarçado!



7 – PRIMAVERA


Dia 21 de Março…
Levantei-me cedo e fui acordar o Sol,
Tinha a intenção de em seguida ir
Escrever uma ode à Primavera !
Ruiu pela base o plano ao recordar o
Abate sistemático e organizado
De qualquer tipo de arvores e no lugar delas
Acumular toneladas de cimento e tijolos
Desequilibrando o sistema anterior.
É Primavera !... ( e por aqui ficou o poema )
                   Agora vou para a rua construí-la !..




8 - A CARA DO  ÂNGELO


Trazia no rosto o rubor e a alegria
Dos catorze anos incompletos
E da corrida do atraso para o jantar.
- então que houve ?!
                                      Espontâneo  ! Alegre !
Estivemos a preparar uma insurreição !
- … ! Uma insurreição ?!...!...!
Metemos pregos e fósforos em todas as fechaduras
                                      Do prédio aqui ao lado !
Metemos na estrada aqueles ramos de oliveira
                                      Que foram cortados há dias ao fundo da rua !
O atraso foi maior por andarmos à procura de um policia
                                      Para o atropelarmos com as nossas bick !
Desculpa lá o atraso, mas tinha de ser! …
Posso ver o último telejornal ?
…?!...
É só para ver a cara do Ângelo !!!




9 - INVASÃO DO CIMENTO


Para silenciarem o coaxar das rãs no charco
Construíram de cimento um mausoléu
De oito filas de “gavetas”
A seguir à minha janela das traseiras
Roubando-me
                   Insensatos   insensíveis
O pomar
O rio
O Sol
A Lua
Mas eu invento-os :
                            Com rãs no charco
                            E a espreitar pelas janelas !

PROMESSA
Fica a solene promessa
De contar todas as estrelas
Assim que desapareça a tristeza
Dos olhos das crianças !



10 – OFERTA


Dentro em breve oferecer-te-ei
Naturalmente
Este jardim
Com rosas e pássaros coloridos
Poisados dentro dos teus olhos !

NO JARDIM PUBLICO
Esfreguei com força
Uma  duas três vezes os olhos.
Aquela imagem mantinha-se ali
Quieta
Provocatoriamente quieta
Ao Sol fraco de fim de Setembro.
                   Sobre o banco do jardim
                   Lado a lado abraçados
                   Blusa e saia / casaco e calça.
No chão
Lado a lado também
Dois pares se sapatos
                   Um de tamanho e modelo para homem
                   Outro de tamanho e modelo para mulher.
Peça escultórica de escola impressionista !?
- Num jardim público ?!!!
Aproximei-me mais  e entre as calças e a saia
Num pequeno pedaço de papel “transparente “ li :
         Subimos ao céu mas pouco demoramos
Conservai nossos únicos bens !



11 - FELIZES


Se às estátuas que enfeitam os jardins
Onde crescem as flores e árvores
                   E a miséria
Perguntassem se eram felizes
Certamente ouviriam e veriam como eu
Um não plasmado nos seus lábios de musgo
E veriam lágrimas a pingar nos lagos !




12 - CALMOS SONHOS


Belos e calmos serão vossos sonhos
Prolongados que são pelos profundos sonos
                            Quase intermináveis !
Eu mal durmo
Com cada vez maiores pesadelos !
Por isso me levanto cedo
E com vontade de me não deitar.
Prefiro estar acordado… sempre…
Mesmo na noite
Que alguns querem artificiosamente aumentar !
                   Estar aqui fora ao Sol com outros
                   Abrir novos espaços com outros
Para poisarem as pombas brancas que
                                      Cansadas
                                      Escorraçadas
Sobrevoam todo o Mundo !...




13 - DIA DE NATAL


Seis anos de idade…talvez
Um metro de cidadão
Dentro de um arremedo de camisa
E dumas esburacadas calças
Que mal chegavam aos pés nús
Frios
Como esta manhã de 25 de Dezembro.
                   De peito côncavo
                   Esquivando-se ao frio
                   De mãos nos bolsos vazios
                   Fugindo ao frio
                   Olhava :
                            O outro menino à sua frente parado.
Dirigiu-se a ele
De mãos frias nos bolsos vazios
Colocou seu pé nú
Ao lado da bota nova
                                      Azul
                                               Do outro menino.
Espreitou
De um e outro lado
                            Será que sorriu ?!
Parecendo satisfeito com a análise.
                            Tirou uma das sujas mãos do buraco-bolso
                            Coçou sua cabecita suja num gesto-hábito 
                            Dos sempre em dificuldade,
E correu passeio adiante
Com o Natal nos olhos
Em busca de umas botas azuis !...




14 - E SE…


E se
         Um ministro do ultramar
         De Salazar
         Das guerras coloniais
         Fala em paz e democracia
Isso será demagogia ?

E se
         Quando dás uma moeda
         Ao miúdo pedinte
         E lhe recomendas que é para um bolo
Isso não será o F.M.I. ?!

E se
         Um desconhecido
         À mesa do café
         Vinte paus na mão
         Para uma bica de dez
         Optando entre  receber o troco
         E o perder a camioneta
         Resolveu pagar o teu café
Isso é impulse ?!

Reis Caçote
                           E NÃO VAI DEIXAR DE ACORDAR A MÃE ! 
             DE QUE PAIS AFRICANO SERÃO ? E DE QUE TRIBO                    DAQUI SE PARTE PARA VISITAR AS GRAVURAS RUPESTRES! 

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