RETOMANDO A PUBLICAÇÃO DA POESIA DE REIS CAÇOTE !
POESIA MILITANTE
I -
PARTE
1
– FRIEZA
Dos
olhos daquela criança
Que
chora
Aparei
cristalinas
De
cada olho uma lágrima
Que
coloquei nos teus olhos de estátua
Insensibilidade
de pedra
Já
que nunca tinhas chorado:
Nem
lágrimas de criança se ajustam
Aos teus olhos !
Serão
de vidro ?!
2
– ORATÓRIO
Atrás
daquela janela
Está
acesa uma vela
Não alumia um
altar…!
Mas
a fotografia de um militar !
3
– EMIGRAÇÃO
Para
terras de França partiu
Mais
um irmão…
Como
os outros clandestino
Analfabeto
como os outros.
Ficarei mais rico sempre que um irmão
parte ?!
Não
!
Como eles reneguei a herança
Mas nunca partirei para terras de
França.
Enquanto
em mim residir a esperança
Não
a apregoada na fé
Mas
a na falta de fé idealizada
Em cada dia
Apenas de poentes
Que só a natureza
Se
permite colorir !
4
- DO HERÓI
Meu
remo partido no lombo do mar
Meu
coto de braço perdido na guerra
Meu
resto de perna amputado de bomba
Meu
olho a menos perdido na mata
Meu
pensamento interrompido pela última explosão.
Coto de braço
Resto de perna
Olho a menos
Pensamento
interrompido
Meu
remo partido no lombo do mar
Sou
o que resta de um Herói da guerra !
5
- “ONU – NATO
Farto
de frio
Farto
de fome
Farto o frio de fome
Farta a fome de frio
Vietname
! Paquistão ! Biafra !
Discussões
duras nas Brancas casas
Sobre a fome de frio farta
Sobre o frio de fome farto
Nas
Casas Brancas discute-se duro
Sobre as casas sem côr
Dos de fome fartos
de frio
Dos de frio fartos
de fome
A
frio se discute duro nas Casas Brancas
Alçapões
de consciências !!!
5
– OTORRINO
E
do alto da vestida sabedoria branca
Brotou
a negra sentença:
Tens de pensar em ser
operado!
A
partir daí
Nos
olhos e mãos do sábio
Passei
a ver só um bisturi !
Grande demais para amputar
Minhas
cordas vocais !
Mas
aqui para nós:
Se tiver que ser
operado
E gritar não for
capaz
Virei à mesma p’rá
rua
Com meu grito num
cartaz !
Sempre
que tiver razão
Lá
estarei de cartaz na mão
Calarem-me
é que não !
E
se meu grito
Não
couber num só cartaz
Gritarei
em dois
E
se preciso for escreverei
Pela
frente e por trás !
E
se me cansar do cartaz
E
continuar a ter razão
Como agora
Olharei
para trás e
Num
repelão
Deitar-vos-ei
a língua de for !
Não
esperarei que m’a puxem
Nem
ouvirei vosso palavrório
Como
sucedeu naquele dia
No teu
consultório !...
6
- GUIA “TURISTICO”
Vedes
além
Engravatado
Aquele
homem parado ?
Não é um
vadio
Um ocioso
É um “senhor
deputado “ !
A
atravessar a rua
Gordinho
De
charuto na boca
E
olhar sinistro ?
Não
é um assassino
Nem um
cauteleiro
É um
post-ministro !
Daquele
lado
Com
duas moletas
Em
metal cromado?
Não
teve um acidente
Veio da
guerra
Era
soldado !
Lá
em cima
A
meio da encosta
A
luzir ?
São
telhados de barracas
De gente
humilde
Para
demolir !
E
aquele todo sujo
De
andar lento
E
grande cifose ?
Não é um
desempregado
É um
mineiro
De pulmão
silicose !
E
além ao cimo da escada
Na
entrada da Faculdade
Mal
encarado
Não é um aluno e
Nem um
professor
É um
PIDE disfarçado!
7
– PRIMAVERA
Dia
21 de Março…
Levantei-me
cedo e fui acordar o Sol,
Tinha
a intenção de em seguida ir
Escrever
uma ode à Primavera !
Ruiu
pela base o plano ao recordar o
Abate
sistemático e organizado
De
qualquer tipo de arvores e no lugar delas
Acumular
toneladas de cimento e tijolos
Desequilibrando
o sistema anterior.
É
Primavera !... ( e por aqui ficou o poema )
Agora
vou para a rua construí-la !..
8
- A CARA DO ÂNGELO
Trazia
no rosto o rubor e a alegria
Dos
catorze anos incompletos
E
da corrida do atraso para o jantar.
-
então que houve ?!
Espontâneo ! Alegre !
Estivemos
a preparar uma insurreição !
-
… ! Uma insurreição ?!...!...!
Metemos
pregos e fósforos em todas as fechaduras
Do prédio
aqui ao lado !
Metemos
na estrada aqueles ramos de oliveira
Que foram
cortados há dias ao fundo da rua !
O
atraso foi maior por andarmos à procura de um policia
Para o
atropelarmos com as nossas bick !
Desculpa
lá o atraso, mas tinha de ser! …
Posso
ver o último telejornal ?
…?!...
É
só para ver a cara do Ângelo !!!
9
- INVASÃO DO CIMENTO
Para
silenciarem o coaxar das rãs no charco
Construíram
de cimento um mausoléu
De
oito filas de “gavetas”
A
seguir à minha janela das traseiras
Roubando-me
Insensatos insensíveis
O
pomar
O
rio
O
Sol
A
Lua
Mas
eu invento-os :
Com rãs no charco
E a espreitar pelas
janelas !
PROMESSA
Fica
a solene promessa
De
contar todas as estrelas
Assim
que desapareça a tristeza
Dos
olhos das crianças !
10
– OFERTA
Dentro
em breve oferecer-te-ei
Naturalmente
Este
jardim
Com
rosas e pássaros coloridos
Poisados
dentro dos teus olhos !
NO
JARDIM PUBLICO
Esfreguei
com força
Uma duas três vezes os olhos.
Aquela
imagem mantinha-se ali
Quieta
Provocatoriamente
quieta
Ao
Sol fraco de fim de Setembro.
Sobre o banco do jardim
Lado a lado abraçados
Blusa e saia / casaco e
calça.
No
chão
Lado
a lado também
Dois
pares se sapatos
Um de tamanho e modelo para
homem
Outro de tamanho e modelo
para mulher.
Peça
escultórica de escola impressionista !?
-
Num jardim público ?!!!
Aproximei-me
mais e entre as calças e a saia
Num
pequeno pedaço de papel “transparente “ li :
Subimos ao céu mas pouco demoramos
Conservai
nossos únicos bens !
11
- FELIZES
Se
às estátuas que enfeitam os jardins
Onde
crescem as flores e árvores
E a miséria
Perguntassem
se eram felizes
Certamente
ouviriam e veriam como eu
Um
não plasmado nos seus lábios de musgo
E
veriam lágrimas a pingar nos lagos !
12
- CALMOS SONHOS
Belos
e calmos serão vossos sonhos
Prolongados
que são pelos profundos sonos
Quase intermináveis
!
Eu
mal durmo
Com
cada vez maiores pesadelos !
Por
isso me levanto cedo
E
com vontade de me não deitar.
Prefiro
estar acordado… sempre…
Mesmo
na noite
Que
alguns querem artificiosamente aumentar !
Estar aqui fora ao Sol com
outros
Abrir novos espaços com
outros
Para
poisarem as pombas brancas que
Cansadas
Escorraçadas
Sobrevoam
todo o Mundo !...
13
- DIA DE NATAL
Seis
anos de idade…talvez
Um
metro de cidadão
Dentro
de um arremedo de camisa
E
dumas esburacadas calças
Que
mal chegavam aos pés nús
Frios
Como
esta manhã de 25 de Dezembro.
De peito côncavo
Esquivando-se ao frio
De mãos nos bolsos vazios
Fugindo ao frio
Olhava :
O outro menino à sua
frente parado.
Dirigiu-se
a ele
De
mãos frias nos bolsos vazios
Colocou
seu pé nú
Ao
lado da bota nova
Azul
Do
outro menino.
Espreitou
De
um e outro lado
Será que sorriu ?!
Parecendo
satisfeito com a análise.
Tirou uma das sujas
mãos do buraco-bolso
Coçou sua cabecita
suja num gesto-hábito
Dos sempre em
dificuldade,
E
correu passeio adiante
Com
o Natal nos olhos
Em
busca de umas botas azuis !...
14
- E SE…
E
se
Um ministro do ultramar
De Salazar
Das guerras coloniais
Fala em paz e democracia
Isso
será demagogia ?
E
se
Quando dás uma moeda
Ao miúdo pedinte
E lhe recomendas que é para um bolo
Isso
não será o F.M.I. ?!
E
se
Um desconhecido
À mesa do café
Vinte paus na mão
Para uma bica de dez
Optando entre receber o troco
E o perder a camioneta
Resolveu pagar o teu café
Isso
é impulse ?!
Reis Caçote
E NÃO VAI DEIXAR DE ACORDAR A MÃE ! DE QUE PAIS AFRICANO SERÃO ? E DE QUE TRIBO DAQUI SE PARTE PARA VISITAR AS GRAVURAS RUPESTRES!
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